Bahia Brasil
quinta-feira 29 de janeiro de 2026

Festa de Iemanjá reúne devoção, cultura e tradição em Salvador

Fotos: Bruno Concha/ Secom PMS
Reportagem: Ana Virgínia Vilalva e Nilson Marinho/ Secom PMS

Na próxima segunda-feira (2), o bairro do Rio Vermelho se transformará no palco de uma das mais tradicionais manifestações religiosas e culturais de Salvador: a Festa de Iemanjá. Milhares de pessoas, entre pescadores, religiosos, moradores e turistas, se reunirão em um grande ato coletivo de fé. A celebração conta com o apoio da Prefeitura de Salvador, que mobiliza de forma integrada serviços de mobilidade, trânsito, saúde, ordem pública e segurança.

Realizada a partir da Colônia de Pescadores Z1 e da Casa de Iemanjá, a festa atravessa gerações e se consolidou como um símbolo da identidade cultural da cidade. Em reconhecimento à sua importância histórica, a celebração foi oficialmente registrada como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), em 2020.

“A Festa de Iemanjá é uma forma de reafirmar a relevância de uma celebração dedicada a um orixá na cidade mais negra fora da África. A FGM tem um papel fundamental na preservação dessa festa, considerando sua singularidade e antiguidade. Trata-se de uma celebração com mais de 100 anos de existência que, desde 1º de fevereiro de 2020, foi oficialmente registrada como Patrimônio Cultural Imaterial de Salvador”, afirma Vagner Rocha, diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da FGM.

Órgão responsável pela política cultural do município, a Fundação Gregório de Mattos mantém atenção permanente às festas populares. Desse modo, cabe à instituição zelar para que as celebrações preservem seus elementos fundamentais, assegurando a manutenção da identidade, das características e da tradição que marcam essas manifestações.

“A cultura é dinâmica e algumas mudanças são naturais, mas é fundamental que a essência da festa seja preservada. Costumo dizer que a fundação trabalha com a Festa de Iemanjá ao longo de todo o ano, justamente pela importância do diálogo permanente com os pescadores da Colônia Z1, que são os verdadeiros detentores dessa manifestação. Sem os pescadores, sem a colônia e sem a procissão marítima que leva o presente ao mar, a festa não acontece”, completa Rocha.

O diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais lembra que, no ano passado, foi implementada uma série de iniciativas voltadas à preservação da festa. Entre as ações estão a elaboração do Plano de Salvaguarda, o restauro da imagem da orixá localizada em frente à Casa de Iemanjá, além de reparos de seis embarcações utilizadas pelos pescadores, anfitriões da celebração e responsáveis pelo ápice do evento: a entrega da oferenda em alto-mar.

Neste ano, a FGM realiza a restauração da escultura da sereia do Largo da Mariquita, obra do artista Tatti Moreno, que deve ser entregue nos próximos dias. “Tudo isso demonstra o cuidado em garantir a continuidade da festa ao longo do ano. Trata-se de uma celebração de importância fundamental não apenas para o calendário das festas populares de Salvador, mas também para a valorização da matriz africana na formação da cidade”, destaca Rocha.

A Festa de Iemanjá ocupa um lugar singular no calendário cultural da capital baiana. É a única celebração dedicada exclusivamente a um orixá, sem a presença do sincretismo religioso. “Isso é extremamente emblemático em uma cidade como Salvador, que cresceu voltada para o mar e para a Baía de Todos-os-Santos. Reverenciar Iemanjá é reverenciar as águas, a preservação ambiental e o cuidado com o mar, especialmente em um momento em que discutimos os impactos das mudanças climáticas no mundo”, finaliza o diretor.

Protagonismo – Embora haja esforços do poder público para assegurar a preservação da memória da festa, são os pescadores os principais responsáveis por manter viva essa tradição. José Roberto Pantaleão, de 69 anos, é um deles. Ex-presidente da Colônia Z1 nas décadas de 1970 e 1980, ele não esconde o orgulho de fazer parte da manifestação religiosa.

“A gente tem um orgulho muito grande de pertencer à Colônia Z1 e participar dessa festa. É uma devoção muito forte. Eu pertenço à colônia há 51 anos, então temos história e memória muito vivas dessa celebração, e de como ela foi evoluindo. Quando me filiei, já era uma festa importante, mas Salvador tinha muitas outras no calendário. Com o tempo, isso foi sendo filtrado. Hoje, em termos de volume, ficaram grandes festas como a do Bonfim e a do Rio Vermelho”, relata.

Pantaleão lembra que, no passado, pescadores e religiosos não contavam com incentivo para a realização da festa. Tudo era feito com muito esforço e dedicação. “Por conta da dimensão que a festa tomou, e não é mérito só nosso, o poder público, em todas as esferas, passou a ajudar. Teve uma época em que a gente fazia ‘livro de ouro’. Chegava o dia da festa e não tinha dinheiro em conta. Comprava tudo fiado: balaio, tudo”, completa.

Nilo Garrido, de 60 anos, também pescador e integrante da Colônia Z1 desde 1985, compartilha do mesmo orgulho de contribuir para a preservação da celebração voltada para a Rainha do Mar.

“A Festa de Iemanjá representa muita coisa para a gente e tem um significado enorme. Hoje, o poder público está olhando mais para nós, dando mais atenção, por conta da dimensão que a festa tomou em Salvador e da importância que ela tem. Você anda pelo Rio Vermelho e vê aquela concentração de gente. Tem um encanto ali que não dá para explicar”, conclui.

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