Bahia Brasil
sexta-feira 7 de agosto de 2026

Caiado ataca baianos, esconde queda da violência e fecha os olhos para desastre de aliados em Salvador

Poucos dias depois de causar revolta ao dizer que viria “alforriar” os baianos — expressão carregada pela memória da escravidão —, o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, voltou ao ataque, desta vez tentando vender a imagem de uma Bahia mergulhada numa espiral de violência. Errou feio.

Desde que Jerônimo Rodrigues assumiu o governo, as mortes violentas caem ano após ano. Foram menos 6% em 2023, menos 8,7% em 2024 e menos 13,1% em 2025. Em 2026, a redução chegou a 20,5% entre janeiro e julho. Não é um número perdido numa planilha: são quatro anos consecutivos de queda, numa curva que vem se aprofundando. É justamente essa Bahia que Caiado convenientemente ignorou.

A gestão de Jerônimo ampliou o uso de inteligência e tecnologia, reforçou equipamentos, armamentos e infraestrutura e melhorou as condições de atuação das polícias. Ao mesmo tempo, operações integradas passaram a atingir não apenas os homens das organizações criminosas, mas seu dinheiro, suas armas e suas estruturas. Foram 1.400 operações, 98 mil prisões, 24 mil armas apreendidas e 53 toneladas de drogas retiradas de circulação. Quadrilhas foram desarticuladas, lideranças presas e milhões de reais bloqueados em ações destinadas a estrangular financeiramente o crime organizado. A queda continuada das mortes violentas começa a mostrar, na ponta, o resultado dessa estratégia. O resultado é fruto de um trabalho de fortalecimento das forças de segurança construído paulatinamente desde o governo Jaques Wagner, aprofundado por Rui Costa e acelerado por Jerônimo.

Até o número usado por Caiado para sustentar o ataque exige o contexto que ele preferiu esconder. As mortes apontadas pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública correspondem às Mortes Violentas Intencionais, indicador que reúne diferentes tipos de ocorrência, inclusive mortes decorrentes de intervenção policial. Mesmo por esse critério mais amplo, a Bahia registrou redução em 2025.

E talvez seja compreensível que não queira falar muito de letalidade policial. Goiás registrou em 2025 taxa de 4,9 mortes decorrentes de intervenções policiais por 100 mil habitantes, acima da média brasileira e entre as maiores do país. Em Anápolis, o Ministério Público conseguiu decisão judicial determinando medidas para redução da letalidade policial e implantação de câmeras corporais. O governo Caiado recorreu e conseguiu derrubar a obrigação.

Em julho deste ano, mais uma cena colocou em xeque a propaganda da segurança goiana. Um sargento da Polícia Militar foi preso depois de ser filmado agredindo e ameaçando um adolescente de 16 anos em Catalão, episódio que chocou o Brasil. Quando fala da Bahia, Caiado encontra números, adjetivos e culpados com impressionante facilidade. Para os problemas debaixo do próprio nariz, a visão parece bem menos aguçada.

A cegueira fica ainda mais conveniente quando o tema é Salvador. Caiado não demonstra a mesma curiosidade pelos resultados da principal experiência administrativa do grupo do aliado ACM Neto, que governa a capital há mais de 13 anos.

Na educação, Salvador obteve Ideb 5,6 nos anos iniciais e ficou atrás de 148 redes municipais baianas: 149ª colocada no estado. Em 2025, somente 50% das crianças atingiram o nível esperado de alfabetização, abaixo da meta estabelecida para a capital. Os professores municipais atravessaram uma greve de 74 dias e voltaram às ruas em 2026 cobrando compromissos que, segundo a categoria, continuavam pendentes. Pais e estudantes também conviveram com reclamações de atraso na entrega de fardamento e material escolar.

Na saúde municipal, a vitrine de ACM Neto também tem rachaduras que Caiado prefere não enxergar. Unidades da rede enfrentaram denúncias de falta de medicamentos, inclusive nos Centros de Atenção Psicossocial. Em diferentes momentos, profissionais, usuários e representantes políticos denunciaram desabastecimento e precariedade no atendimento.

E, antes de voltar a falar em “alforriar” os baianos ou ensinar a Bahia a governar, talvez fosse melhor olhar para Goiás — e, já que escolheu ACM Neto como companheiro de palanque, dar também uma passada pela educação e pela saúde municipais de Salvador.

Foto Reprodução Globo News.

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