Por Morgana Montalvão
Aos 80 anos, João Felipe de Souza Leão – mais conhecido como João Leão – carrega uma das trajetórias mais longevas da política baiana. Nascido em Recife, em 27 de fevereiro de 1946, veio de uma tradicional família de empresários pernambucanos e chegou à Bahia ainda jovem, formado em Agronomia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Foi lá que construiu sua vida, à frente de empresas do ramo de engenharia e construção civil sediadas em Lauro de Freitas e Salvador.
Foi só em 1988, sem nunca ter disputado um cargo eletivo, que Leão despontou para a política: concorreu à Prefeitura de Lauro de Freitas e venceu com a maior votação proporcional do Brasil naquele pleito. À frente do município entre 1989 e 1992, ficou conhecido por uma gestão voltada a obras e infraestrutura.
Dali em diante, a carreira se estendeu por quase quatro décadas: foram seis mandatos como deputado federal, o primeiro a partir de 1995, intercalados por passagens pela Secretaria de Infraestrutura da Bahia (2009-2010) e pela Casa Civil de Salvador (2011-2012). Em 2015, assumiu a vice-governadoria do estado ao lado de Rui Costa (PT), posto que ocupou por dois mandatos consecutivos, acumulando também as secretarias de Planejamento e de Desenvolvimento Econômico. A aliança, no entanto, chegou ao fim em março de 2022, quando Leão rompeu publicamente com o governo petista e devolveu as pastas sob comando do seu partido, o Progressistas (PP) – uma ruptura que o próprio político descreveu, à época, como uma sensação de “traição”.
Reeleito deputado federal em 2022, Leão está atualmente licenciado do mandato para ocupar a Secretaria de Governo (Segov) da Prefeitura de Salvador, a convite do prefeito Bruno Reis (União Brasil). Antes de assumir o novo posto, havia anunciado que se afastaria da vida pública para escrever uma autobiografia – plano que, como o leitor confere a seguir, acabou adiado, mas não esquecido.
Conhecido pelo bom humor e por frases marcantes – como a promessa recorrente de que “vai viver até os 200 anos” -, o ‘bonitão’ – apelido pelo qual ficou conhecido, assim também chamando os amigos e amigas mais próximas – falou ao Bahia Municípios sobre essa nova etapa à frente da Segov, o rompimento com o PT, os planos para as eleições de 2026 na Bahia.
Bahia Municípios – Secretário, o senhor afirmou em uma anterior entrevista no nosso site que estaria se aposentando da vida política para se dedicar à escrita de uma autobiografia. Pouco tempo depois, assumiu a Secretaria de Governo da Prefeitura de Salvador. O que na prática é mais difícil: escrever a sua história ou continuar vivendo na gestão pública?
João Leão – A gestão pública para mim é um desafio. Eu vivo de gestão pública. Sou empresário, já tive 11 empresas, mais de 11 mil funcionários e me dediquei à vida empresarial até entender que precisava fazer algo pelo povo. Resolvi ser prefeito de Lauro de Freitas ( 1989-1992) e comecei a trabalhar. Modifiquei a vida das pessoas na minha cidade: fiz a duplicação da Estrada do Coco, trouxe seis universidades para o município e trouxe mais de 1.000 empresas, tudo isso em apenas quatro anos. Depois, tive como sucessores Otávio Pimentel (1993-1996), Roberto Muniz (1997-2000) e Marcelo Abreu (2001-2004), que fizeram grandes mandatos. Nós transformamos a cidade. Lauro de Freitas hoje é uma das cinco maiores da Bahia em arrecadação e receita [ver Nota da Redação].
Fico muito feliz em estar nessa luta. Sobre a Segov: eu sou deputado federal e estou licenciado. O prefeito Bruno Reis (União Brasil), meu querido prefeito, me convidou, e aceitei ajudar. Como o Cacá Leão [filho] é candidato a deputado federal, estou pensando em me aposentar da política eleitoral – não da política em si -, para deixar o Cacá tocar a vida dele; vou ficar na política para ajudar. Vem aí ACM Neto (UB), João Roma (PL), Ângelo Coronel (Republicanos), está aí o prefeito Bruno Reis, que estou ajudando hoje. Minha vida é política. Agora, quero escrever; quem sabe não está nascendo um novo Jorge Amado na Bahia, já com 80 anos de idade, mas caminhando para frente. Eu vou viver 200 anos, viu, bonitão e bonitona? 200 anos.
BM – O senhor acabou de falar no nome de ACM Neto. Todo mundo já sabe que ele é um candidato às eleições do governo do estado em 2026. Por que o senhor acredita que, após duas derrotas, o eleitor baiano estaria propenso a mudar a direção do estado para o partido União Brasil?
JL – Bem, hoje todas as pesquisas indicam que, se a eleição fosse amanhã, o ACM Neto seria o governador do estado da Bahia. As pesquisas mostram ACM Neto com 17 pontos percentuais à frente do atual governador Jerônimo Rodrigues (PT).
Mas é aquela velha história: eleição só se ganha no dia, não se ganha antecipado. ACM Neto está fazendo uma pré-campanha excepcional. Estão aí na pré-campanha o ACM Neto, João Roma, Ângelo Coronel,o Cacá Leão e uma série de candidatos a deputados estaduais e federais, e nós vamos realmente ganhar essa eleição. Eu não sou perdedor, eu sou vencedor.
BM – Sobre a gestão de Bruno Reis: o prefeito enfrenta críticas, especialmente no que tange à expansão de serviços às áreas periféricas da cidade. Como o senhor, na Segov, pretende blindar a gestão de possíveis desgastes e garantir a competitividade do prefeito para uma reeleição?
JL – Conhece algum prefeito, principalmente agora nessa era da internet, que não receba crítica? Toda a oposição critica. Se vir um papel de lixo na rua, por exemplo, criticam o prefeito, não quem jogou o lixo. Bruno Reis é um excepcional prefeito, está fazendo uma grande administração e é um gestor que tem 87% de aprovação da sua comunidade. Então, isso para mim basta. O que eu vim fazer foi colaborar com o prefeito Bruno Reis, no intuito de cada dia mais nós fazermos melhor por Salvador.
BM – O governo de Jerônimo Rodrigues (PT) tem focado na ampliação de investimentos via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Como o senhor avalia a condução administrativa do Estado? Existe, na sua visão, um projeto estratégico para a Bahia ou é uma continuidade das gestões anteriores?
JL – Bem, eu entendo um pouco de PAC. O Programa de Aceleração do Crescimento, que antes não era PAC, era PPI (Projeto Piloto de Investimento). Quando eu criei, criei como projeto piloto; era um projeto que os estados traziam para a União aprovar.
O que eu vejo que falta no governo Jerônimo, o que falta nos governos do PT, é aquela elaboração, é a consistência. Essa consistência não existe. É preciso ter elaboração. Vou lhe dar um exemplo: quando eu estava no governo do estado como vice-governador, construí uma ponte no Rio São Francisco, lá no município de Barra, e construí 750 km de rodovias. Sabe quanto o estado gastou? Nada. Fiz na base de PPP (Parceria Público-Privada). Consegui dinheiro no Banco do Nordeste, no Desenbahia, e fizemos as estradas e a ponte, que está lá, bonita, linda e maravilhosa. Tanto que o estado gostou tanto que botou o nome do meu pai na ponte, Luiz Felipe de Souza Leão.
Então, isso é você correr atrás, fazer a coisa acontecer. O exemplo disso é essa ponte Salvador-Itaparica, que está aí há anos e anos. Quem começou a ponte Salvador-Itaparica fui eu, a FIOL (Ferrovia de Integração Oeste-Leste), fui eu. Eu fiz os projetos e a coisa não anda.
O que está faltando? Gestão. Ao governo de Jerônimo e ao governo da União falta gestão, falta vontade política e uma administração séria, sem trapalhada, sem safadeza, sem absolutamente nada. Essa é a minha maneira de fazer política.
BM – O senhor acabou de falar sobre a ponte. Acha que essa ela será construída e quais são as suas principais críticas em relação como o Governo do Estado está lidando com ela?
JL – Olha, a ponte Salvador-Itaparica é um divisor de águas. Salvador, capital do Estado da Bahia, e a Bahia está entre os maiores estados da Federação Brasileira em riqueza e em terras agrícolas, mas é um estado excepcional muito mal gerido. Quando eu elaborei o projeto da ponte, pensei: o que faz o estado se desenvolver? Você vai na China, em todo canto só vê duplicação de rodovias. A duplicação leva ao desenvolvimento econômico. Vou dar um exemplo prático: aqui de Salvador, você tem o litoral norte até a divisa. Quando termina a duplicação, acabou-se o desenvolvimento; dali para frente não tem mais desenvolvimento. O projeto da ponte Salvador-Itaparica foi no intuito de levar a duplicação de Salvador até o Sul da Bahia, até Porto Seguro, levando toda essa região – Nazaré das Farinhas, Itacaré, Ilhéus – e, na continuidade, até Santo Antônio de Jesus, de Santo Antônio de Jesus até Itaberaba, de Itaberaba até Valença, de Valença até Ibotirama, de Ibotirama até Barreiras, de Barreiras até Luís Eduardo Magalhães, e de Luís Eduardo Magalhães até a divisa de Goiás. Aí você cria uma infraestrutura no Estado da Bahia que traz desenvolvimento econômico. Isso é que é necessário: infraestrutura. A outra coisa que você precisa no Estado é educação e saúde, a coisa acontecer com moralidade, com vontade. Não sei por que a educação não funciona. Aqui em Lauro de Freitas, quando eu fui prefeito, botei uma educação modelo. Então, são essas coisas que o gestor precisa virar um canhão para resolver: correr atrás, fazer acontecer, ter seriedade, ter honestidade. Eu duvido que tenha um empresário que diga: “Eu dei um tostãozinho aqui a João Leão para ele resolver esse problema para mim”. Porque é moralidade. Hoje, o político que a gente vê aí, quando o empresário chega, coça o olho. Eu não sou dessa maneira; sou da maneira de ajudar o empresário a ganhar o seu dinheiro, mas trazendo o progresso e o desenvolvimento para o município, para o Estado e para a União.
BM – Secretário, ainda falando sobre o governo do PT. Todo mundo sabe que o senhor foi vice-governador nos dois mandatos de Rui Costa. Hoje o senhor figura como um dos nomes centrais da oposição ao PT na Bahia. Olhando para trás, qual foi o ponto de inflexão? Ou seja, qual foi o momento exato em que o senhor percebeu que a aliança com o grupo petista se tornou insustentável?
JL – É aquela velha história. Quando fui candidato a vice -governador, eu era, na época, maior do que o Rui. Mas diziam: “Não, mas ele é do PT, Wagner e tal”. Aí eu digo: “Tá bom, então nós vamos lá”. O Rui seria o candidato a governador e eu seria o candidato a vice. Porém, “na próxima eu irei” [ ser governador]. Aí vem a próxima, foi a reeleição de Rui. Aí vem a próxima da próxima… Aí eu desisti. Não quero mais isso para ninguém. É “só vir a nós, e ao nosso reino nada”. Então eu saí e vim cuidar da minha vida com outro grupo político. Por sinal, estou muito feliz ao lado de Bruno Reis, ACM Neto, João Roma e Ângelo Coronel. Muito feliz, mesmo. São pessoas que a gente olha nos olhos e acredita naquilo que estão dizendo.

BM – Ainda sobre o governo do PT: recentemente o senhor foi visto em um evento público dividindo palanque com o ex-governador Rui Costa. Esse reencontro sinaliza uma eventual abertura para novos diálogos ou é uma diplomacia institucional falando mais alto que as divergências políticas?
JL — Não, eu fui acompanhando a prefeita de Lauro de Freitas, Débora Régis (União Brasil), no lançamento da pedra fundamental da nova maternidade de Lauro de Freitas. O que me aconteceu? O Rui estava falando, eu peguei e tomei o microfone da mão dele – tomei mesmo – e comecei a contar as histórias. Eu disse: “Olha aí, você está vendo essa avenida daqui que passa aqui na frente, que é o contorno da cidade de Lauro de Freitas? Quem fez fui eu. Você está vendo a duplicação lá do aeroporto até Camaçari, até a Ceasa? Quem fez fui eu”. Então, é bom que se digam essas coisas, para o PT começar a aprender a trabalhar. O insucesso deles é no trabalho. Eles têm muita conversa bonita, mas falta sucesso, falta entregar.
Por exemplo, o Bolsa Família: é importante, mas ficar obrigando o beneficiário a não poder trabalhar para não perder o benefício não está correto [ver Nota da Redação]. Eu fiz um projeto para modernizar isso: o beneficiário poder ter o Bolsa Família e ter um trabalho, e cinco anos depois se desligar do programa, continuando com o emprego. Essa coisa é que o PT precisa entender. Não é só dar gás; é preciso botar o povo para aprender a ganhar dinheiro e ficar rico. Eu acredito no trabalho, na força do trabalho das pessoas. O sujeito vai, caminha, e vamos ganhar dinheiro e melhorar a vida. Não tem nada na vida melhor do que um bom salário, uma boa remuneração. Quando você vai melhorando de vida, as coisas acontecem. Você que está me ouvindo: corra atrás, vai ganhar seu dinheiro, vai melhorar a sua vida. Não tem nada melhor do que você ter uma boa escola para seus filhos, um bom colégio, uma boa educação, um bom plano de saúde. Tudo isso nasce do esforço, do trabalho, da vontade de viver e da vontade de crescer junto com sua família, dando um bom exemplo e fazendo com que seus filhos saibam que, na família, tem um bom gestor cuidando deles.
BM – Sobre a segurança pública: a gente sabe que é o maior calcanhar de Aquiles do governo do Estado. O senhor, que conhece profundamente a máquina pública, o que mudaria na estratégia atual para conter a escalada de violência no Estado, especificamente em Salvador?
JL — São algumas coisas simples que, às vezes, você não precisa gastar dinheiro para resolver. Eu moro aqui em Vilas do Atlântico e, sentado com o coronel comandante da região, eu disse: “Rapaz, eu vi na França um negócio que é simples: uma viatura da polícia, quando sai, já sai tocando a sirene”. O ladrão ouve isso de longe. Quem é do crime ouve. Isso poderia ser adotado em toda a Bahia. Não tem sentido os bairros periféricos estarem vivendo momentos desastrosos, com o tráfico tomando conta, o tráfico passou a ser dono da situação. Precisa de quê? Ação policial. Precisa de quê também? De boas escolas. Eu criei aqui a escola de cadetes mirins, em Lauro de Freitas, para pegar os meninos que eram problema; eles vinham para a escola de cadetes e ali melhoravam a sua vida [ver Nota da Redação]. Uma vez tive um problema engraçado: cheguei em Barreiras, fui inaugurar um negócio, me senti mal – já tenho 80, né? Me levaram para o hospital. Quando cheguei lá, quem era o médico? Um ex-cadete mirim daqui, de Lauro de Freitas. Então, essas coisas é que fazem a diferença. A vida precisa se viver, você precisa prosperar, crescer, desenvolver.
BM — Qual a mensagem final que o senhor deixa para os leitores do Bahia Municípios?
JL — A você, um abraço e muito obrigado. Foi um prazer enorme estar aqui no site. Estamos juntos, rumo à vitória. Neto, você precisa tomar conta dessa Bahia. Cacá Leão, você precisa substituir seu pai como deputado federal. João Roma, meu senador da República, e o meu amigo Ângelo Coronel, esse grande senador que ele é. Um abraço, gente!