Na Bienal do Livro da Bahia, o prefeito quilombola Jocivaldo dos Anjos, em entrevista ao portal Bahia Municipios, apresentou sua visão sobre política, literatura e identidade negra, defendendo o protagonismo da juventude, a democratização da cultura e a construção de um projeto coletivo capaz de fortalecer o movimento negro no Brasil.
Bahia Municipios: Sob a concepção do escritor, como o senhor enxerga e entende o legado de Luiz e a importância dele na sua formação política?
Jocivaldo dos Anjos: Luiz era um homem diferente do que eu tinha escutado. Ao lembrar do que ele fez e do que eu tinha ouvido, percebi que ele era um homem bem contemporâneo. Conseguia dialogar com diversas vertentes do movimento negro brasileiro e tinha vários posicionamentos políticos. Ele insistia em um trabalho muito forte, que era trazer a juventude para o centro. Trazer a juventude para esse debate, para esse centro de construção coletiva, de aprendizado sobre a luta negra brasileira, para que a gente consiga envolver esse público nesses espaços. Algumas políticas públicas implementadas, que chegam diretamente ao povo negro no Brasil, acabam não sendo plenamente compreendidas por essa faixa etária mais jovem. Isso porque a formação técnica, muitas vezes, não vem acompanhada da formação política. Luiz era um abnegado nesse sentido, ele conseguia desenvolver um trabalho de dimensão política e, por isso, muitos jovens passaram a se inserir no espaço das políticas públicas e do movimento. Eu acredito que hoje é fundamental trazer a juventude para o centro do debate político, da formação e da ocupação dos espaços coletivos.
BM: No livro que o senhor escreveu, qual o ponto mais importante sobre a trajetória de Luiz Alberto?
JO: A dimensão que ele traz, que eu acho muito importante, é a de que esse livro é para dialogar com as pessoas que nao tiveram oportunidade de plena escolaridade, por exemplo. Você pode trabalhar em uma faixa, você pode trabalhar ele com pessoas que não tiveram chance de estudar. Eu venho de uma tradição de escrita muito natural. Então, é uma leitura que mesmo as pessoas mais humildes conseguem entender. Esse livro tem essa dimensão, um livro escrito com textos breves, um livro fácil de ler, de interpretar e de entender. Ao mesmo tempo, um livro que traz algumas informações importantes. Então, é uma leitura que eu consegui fazer sobre o Luís, sobre o que ele conseguiu construir aqui na Terra. O luiz Albert Presente, é um livro que leio para a minha mãe, que não sabe ler nem escrever, mas, ela entende. Eu acho que uma das coisas que eu retratava também e que ainda venho tratando… é que a gente preto, quando chega em espaços de formações maiores, a gente não pode escrever só para uma elite intelectual. Eu estou no doutorado, falo e escrevo mais de um idioma e não posso esquecer que se eu não escrever para o meu povo quilombola ler e entender, não adianta um preto chegar aonde cheguei. Ele toca em mim, é um preto que é incêndio para escrever para a população branca. Então, o esforço nosso é esse. E, logicamente, que não é muito compreendido porque a crítica literária busca nos escritores algumas características que distinguem para ser considerado como intelectual. Os intelectuais que nós temos no Brasil, a interpretação que nós temos é essa, que é bio-europeia, é bio-eurocêntrica e das pessoas que conseguem trazer à tona algo de europeu para ser assim. E a gente conhece pouco da cultura africana. Então, eu acho que é um livro que eu consegui retratar o que Luiz anseiava. Quando escrevo assim, entendo que não vai entrar nos cânones. Quando eu ganhei um concurso de poesia, foi o oposto desse livro. Fui escrevendo muito numa linha bem parnasiana, como eu disse. Então, eu tenho a alegria de poder escrever para não disputar esses espaços, mas para disputar os espaços nos cânones para as pessoas que tiveram pouca oportunidade. Porque foi isso que Luiz pregou na vida, foi isso que Luiz fez na vida e ele saiu do campo terreno defendendo isso. Ele nunca defendeu como deveríamos fazer participação, seja na política administrativa ou intelectual, para ocupar os espaços da Casa Grande como se fosse necessário. Então, eu acho que a gente tem que ter essa coragem quando a gente consegue ascender esses campos do movimento negro. Eu aprendi bastante com ele neste sentido.
BM: E sobre o movimento negro, como o senhor avalia hoje a atuação desse importante organismo social?
JA: Eu acho que existem alguns campos fragmentados dentro do movimento. Há necessidade de organização e de construção de unidade em pautas fundamentais. Existem pautas em que não podemos nos fragmentar, seja por orientação político-partidária, ideológica ou territorial. O movimento negro, precisa de um grande rejuvenescimento, de construção de pautas coletivas, de ocupação de espaços políticos e de uma agenda nacional. Houve avanços na educação, mas não o suficiente, existem carências no campo cultural e também na saúde. Quando pensamos na saúde da população negra, por exemplo, percebemos que muitas políticas de reparação não são compreendidas de fato, como deveria, Há uma visão individualizada, como se o acesso fosse apenas mérito pessoal e não resultado de políticas públicas. Precisamos avançar no debate sobre quilombos urbanos. O quilombo no Brasil ainda é muito associado a zona rural, mas a maior parte da população negra está nas áreas urbanas. Esse debate ainda não chega de forma efetiva à população que está na base. Se na periferia você perguntar a uma vendedora de cocada, a uma baiana de acarajé ou a um jovem da comunidade, muitas vezes essa compreensão não está presente. E é onde mora a maioria da população. Eu acho que o movimento negro deve fazer um trabalho específico de formação nesse campo pra gente conseguir avançar. Eu acho que esse movimento que está muito presente na formação é muito importante pra gente conseguir construir e sustentar uma política de permanência das pessoas negras e não de assassinatos de pessoas negras, compreendendo enquanto negros, que a chegada do povo negro não deve significar uma luta ou uma causa por identidade coletiva.
BM: O senhor é um prefeito quilombola, fale um pouco sobre o seu mandato.
Nesse Brasil, nós temos os slogans das prefeituras é muito ligado naquela linha que a gente chama de positivista, né? O nosso slogan é “Um quilombo para todos”. A gente designou um quilombo para todos – pra gente trazer o quilombo para o centro do debate e trazer a questão ao centro do debate. As cores do nosso governo sao as cores da África. No ano passado por exemplo, em nossa primeira jornada pedagógica, adotamos o tema “um quilombo educador”. Ao fazermos isso, trouxemos algumas pessoas, algumas assistências.
Mas a Conceiçao Evaristo fala algo que é muito interessante. “Nós não fomos eleitos para acalentar a Casa Grande”. Nós fomos eleitos para apontar o que é que nós queremos produzir de qualidade. Eu não posso chegar nesses espaços e desdizer o que eu defendo. Paulo Freire ja tratava disso, que a gente tem que fazer um esforço do que a gente fala e o que a gente faz, não seja algo distante. O esforço que nós fazemos é esse. Então, seja no campo cultural e no campo educacional, porque isso dá pra gente mais coragem, mais alegria, mais identidade e tem também uma posição das nossas crianças, dos nossas jovens, de poder se sentir enquanto negro. Que a estética não seja somente estética, mas também seja cultural. Porque se não fosse estética, a gente teria os negros de cabelo negro votando em Bolsonaro, por exemplo. Então, o nosso governo tem esse lado, tem essa identidade e nós estamos construindo algo que eu acho muito interessante e muito bonito, que é, você ver os nossos vídeos com as nossas crianças, a nossa farda, do brasão que usa na prefeitura, fala muito sobre isso e traz muito essa identidade nossa. No campo cultural, os grupos de samba de roda, os grupos de terreiros do município, que era meio que escondido, nós conseguimos trazer à tona. Até o diálogo com o campo que é um pouco de outra linha, de outra vertente, com o público evangélico, que tem muita gente preta também. E a gente tem que dialogar bastante com esse público, que tem um conjunto de bons resultados em nosso governo.
BM: Sobre liderança política, há uma lacuna de renovação. Qual a sua avaliação?
JA: Precisamos fortalecer a relação intergeracional. O diálogo entre os mais velhos e os mais jovens é essencial. Eu, por exemplo, não pensava em entrar na política. Foi Luiz quem me incentivou. Hoje, vemos exemplos concretos dessa renovação. Pessoas jovens ocupando espaços importantes. Também é fundamental promover o diálogo entre gerações, inclusive entre aqueles que não tiveram acesso à educação formal. O poder é sedutor. Eu costumo dizer que o poder é doce — e doce demais pode adoecer. Por isso, é essencial manter o diálogo com a base. Nós realizamos rodas de conversa nas comunidades para avaliar políticas públicas. Luiz chamava isso de “escuta qualificada”, ouvir as pessoas e transformar essa escuta em ação. A fragmentação política só contribui se fizer parte de um projeto coletivo maior. Caso contrário, enfraquece o movimento.
BM: Quem pode mudar esse cenário? Como preencher essa lacuna?
JA: Cada pessoa pode contribuir. Costumo lembrar de uma dinâmica em que a resposta estava no espelho: quem muda o mundo somos nós mesmos. Estamos incentivando a participação desde cedo, com grêmios estudantis e projetos nas escolas. Já implementamos iniciativas como o programa Jovem Ouvidor, levando escuta ativa para dentro das escolas. A formação é essencial. Precisamos conhecer nossa história para entender o presente e construir o futuro. Também é importante valorizar nossos autores e disseminar acultura da leitura nas escolas.
BM: Com o avanço da internet, muitos apontavam para o fim do livro impresso. Como o senhor vê esse cenário aqui?
JA: A realidade mostrou o contrário. As feiras literárias da Bahia se tornaram referência. O que acontece aqui hoje é observado por outros lugares do mundo. Esses eventos não apenas valorizam o livro, mas também revelam novos autores. O livro impresso continua vivo. Precisamos levar a leitura para todos os espaços: escolas, praças e comunidades.
BM: Para finalizar: como ampliar a produção de livros na Bahia?
JA: Ótima pergunta. No capitalismo, o livro não é visto como investimento social, não há política pública para isso. Nós temos que ter um financiamento robusto de produção literária. Porque, às vezes, quando a gente vai financiar um livro, as pessoas querem editar e financiar outro livro, a gente tenta financiar o livro impresso em si, mas não financia o tempo do autor pra fazer o livro, não financia o trabalho e nem a pesquisa desenvolvida, não financia nada disso. Nós temos que ter no orçamento a dotação orçamentária direcionada e ela tem que informar o que vai ser investido nesse campo. Por exemplo, em Antônio Cardoso, quando ganhamos a eleição, não tinha biblioteca. A gente teve que construir e vamos inaugurar nesse ano ainda. É um custo isso. Tem que estar no orçamento. Tem que estar no orçamento do Governo do Estado financiar bibliotecas públicas, bibliotecas escolares, porque sem recursos financeiros não tem como manter. E temos que ter nacionalmente, dentro do próprio recurso, seja do Fundeb ou do Ministério da Cultura, dinheiro para financiar a produção literária. E eu volto a repetir: financiar a produção literária, tem que financiar com os escritores que atuem na linha da libertação das pessoas. Por quê? A gente pode financiar um livro que trate de Luiz Alberto, Célia González, Abdias do Nascimento, mas também pode financiar um livro que trate de auto-ajuda para dizer que tem cura gay, para dizer que as pessoas podem se libertar a partir de arrependimento e ir para a igreja. Não podemos estar financiando isso no Brasil.
Fotos: Bahia Municípios



